Em MS, ex de feminicida relata agressão, estupro e ameaças do pai dele

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A consultora de licitações Juliana, de 31 anos, residente em Campo Grande, vive um momento de tristeza e alívio. Ela sofreu ao saber da morte da modelo e influenciadora baiana Ana Luiza Mateus Souza, após a queda do 13º andar de um prédio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Mas também sentiu alívio depois que o suspeito pelo crime, Endreo Lincoln Ferreira da Cunha, foi encontrado morto na cela onde estava, na Delegacia de Homicídios da Capital. Juliana também foi vítima dele, relatando relacionamento abusivo, terminando com agressões e estupro. Juliana também relatou à Polícia Civil em Campo Grande ter sido ameaçada pelo pai de ex-namorado, o pecuarista Eder Lincoln Gonçalves da Cunha, 61 anos. Meses depois de denunciar Endreo, recebeu ligação de Eder. “(…) caso meu filho se mate por conta desta relação, eu vou lhe matar, cortar em pedaços e jogar cada parte em um pedaço do país”. “Sei que é pesado dizer isso, mas dadas as circunstâncias de todo o mal que ele me causou, sim, sinto alívio pela morte dele”, disse em entrevista ao jornal O Globo. “É uma mistura de sentimentos, de tristeza e de que agora, de fato, eu vou poder voltar a ter minha vida de volta. Tive que mudar totalmente a minha rotina para conseguir existir, por conta do medo dele”. Em breve entrevista ao Campo Grande News , Juliana diz que é difícil falar sobre o assunto e que não quer ter o nome vinculado ao de Endreo. Também teme pela repercussão e como isso pode prejudicá-la. Lembra que ainda tem medida protetiva contra o pecuarista, pai do rapaz. A consultora conheceu Endreo no fim de 2024 na empresa de locação da família dele, em Campo Grande. No início do relacionamento ele já demonstrou posse e ciúmes. Queria controlar as redes sociais, os amigos e a quantidade de vezes que falava com a família. A situação escalou, culminando na primeira agressão, ainda em dezembro. A agressão, explica a jovem, ocorreu porque Endreo viu trocas de mensagens entre ela e a mãe do rapaz, em que Juliana pedia ajuda para lidar com o namorado. Depois do espancamento, a jovem relata que foi levada para São Paulo, onde ficou em cárcere privado por 15 dias, sem acesso ao celular, até que os hematomas sumissem. Houve uma tentativa de uma segunda agressão, ainda em São Paulo. Ela diz que, dessa vez, Endreo ameaçou pular do apartamento, no 14º andar. Depois disso, o namoro acabou. Juliana, que trabalha como consultora de licitações, voltou para Campo Grande, mas o rapaz não aceitou a separação. Segundo Juliana, Endreo passou a persegui-la durante todo o ano passado. “Ele me perseguia no trabalho, nas redes sociais, mandava mensagens para os meus clientes, para as mulheres dos meus clientes, dizendo que eu tinha um caso com eles. Ele sabia o horário em que eu chegava e que eu saía de casa. Em 26 de outubro, ele me sequestrou”. A jovem relata que ficou em cárcere por 24h. Foi agredida, estuprada e enforcada com cinto. Sofreu traumatismo em dois lugares no rosto e várias escoriações. Juliana conta que só escapou pois sabia lidar com ele. “Conversei muito com ele, falei que tudo que estava acontecendo era culpa minha, que ele ia cuidar de mim como cuidou da primeira vez. Ele me acusava de ter outros homens. Ele gravou um vídeo fazendo com que eu, toda ensanguentada, assumisse todos os relacionamentos que, na cabeça dele, existiam. Gravou por mais de meia hora me fazendo perguntas e, toda vez que eu dizia não, ele me batia mais e eu tinha que assumir tudo que ele falava. Fiquei horas negociando com ele, até que consegui fazer com que ele me deixasse na UPA. Estou aqui hoje pela graça de Deus”, disse a consultora. O caso foi registrado na Deam (Delegacia Especializada de Atendiomento à Mulher), em outubro de 2025 e Endreo foi preso, mas acabou sendo liberado. Em 2026 foi para Rio de Janeiro, onde conheceu Ana Luiza. Pedaços – A denúncia de Juliana e a partida de Endreo não deram fim ao tormento. Em novembro de 2025, relatou na Deam que recebeu ligação do pai do ex, o pecuarista Éder Lincoln Gonçalves da Cunha, que a ameaçou de morte. Este relato foi feito à polícia, que, no dia 4 daquele mês, formalizou pedido de busca e apreensão de arma de fogo e munições, além de busca pessoal nos endereços ligados ao investigado. Conforme despacho judiciário, no mesmo dia, às 22h25, o promotor Pedro Arthur de Figueiredo, do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), manifestou-se favorável ao pedido. No parecer, apontou que a medida era necessária para garantir a segurança física e psicológica da vítima e evitar possível reincidência. Também opinou pela concessão de medidas protetivas, como a proibição de aproximação do investigado a menos de 300 metros da vítima, familiares e testemunhas, além da proibição de contato por qualquer meio. O pedido foi analisado no plantão criminal e, em 5 de novembro de 2025, a juíza Larissa Castilho da Silva Farias deferiu a solicitação, autorizando a busca e apreensão de armas de fogo e munições em posse de Éder Lincoln. A ordem judicial foi cumprida em 11 de novembro de 2025. Policiais estiveram em dois endereços vinculados ao investigado, um na Avenida Fernando Corrêa da Costa e outro na Rua das Garças. Nenhuma arma de fogo ou munição foi localizada nos locais. Sem novos elementos no processo, o caso foi analisado posteriormente pela 4ª Vara de Violência Doméstica e Familiar. Em 7 de janeiro de 2026, o juiz Marcus Abreu de Magalhães proferiu sentença, registrando que a medida de busca e apreensão havia sido devidamente cumprida e que o resultado foi negativo quanto à localização de arma, além de não haver fatos novos nos autos. Com base nisso, o magistrado declarou extinto o processo, com resolução do mérito, conforme o artigo 487, inciso I, do Código de Processo Civil, entendendo que o pedido havia sido satisfeito com o cumprimento da diligência. Ao Campo Grande News , Juliana disse que conseguiu medida protetiva contro o pecuarista, o que ainda está em vigor. A reportagem não conseguiu contato com Eder Lincoln para falar sobre a acusação. Gaiola de ouro – Em Teixeira de Freitas (BA), familiares e amigos esperam a chegada do corpo de Ana Luiza Mateus Souza, de 29 anos, modelo e candidata a miss morta no Rio de Janeiro. Ela morreu na madrugada de ontem (22), ao cair do 13º andar de prédio na Barra da Tijuca. “Ela não tinha me contado da situação, contava que ele era ciumento, mas que já estava batendo nela, mantendo em cárcere privado”, disse o influencer João da Cruz Neto, amigo de infância da jovem. Segundo João, Ana teve uma infância mais reservada por questões de saúde, o que a fez sair pouco de casa até os 16 anos. Após uma cirurgia, passou a ter uma vida mais ativa. “Ela começou a viver depois disso, começou a namorar e chegou a casar. Ficou dois ou três anos nesse relacionamento e terminou bem. Era uma menina com muitos sonhos, estava começando a viver agora”, relatou. Depois da separação, trabalhando como modelo, recebeu convites para trabalhar no Rio de Janeiro e resolveu arriscar. Em fevereiro, conheceu Endreo durante o Carnaval, na Sapucaí. “No início era tudo muito bom, ele se mostrava uma pessoa bacana, mostrava o que tinha. Eles viajaram juntos para um curso que ele fez”, contou. Nessa viagem, Ana Luiza não mantinha muito contato, alegando que o sinal era ruim. “Mas quando voltou continuou assim. Hoje a gente sabe que ela já estava em cárcere privado. Ele não queria que isso aparecesse”, afirmou. João disse que a última conversa com Ana ocorreu no domingo anterior ao crime. Na mesma data, Ana teria contado a uma amiga que se sentia presa no relacionamento. “Ela disse que estava vivendo numa ‘gaiola de ouro’”, relatou. Na noite do ocorrido, ela conseguiu falar com a mãe e revelou a situação. “Eles brigaram muito, ele saiu do apartamento. Quando ele saiu, ela ligou para a mãe e contou tudo. A mãe mandou comprar passagem e voltar na hora”, disse João. Sem encontrar voo imediato, Ana adquiriu passagem para as 6h da manhã seguinte. Antes disso, enviou imagens mostrando hematomas nas pernas. “Ela mandou foto das pernas machucadas. Falou do cárcere privado, que ele estava batendo nela. Na cabeça dela, ele não ia voltar”, afirmou. O amigo acredita que o retorno do homem ao imóvel desencadeou a agressão final. “Quando ele voltou e viu as malas prontas, foi o estopim. Aí aconteceu a briga”, disse. João descreveu Ana como uma jovem de origem simples, que não esperava viver uma situação de violência. “A família é simples, ninguém imaginava isso. Ela era inocente, cheia de sonhos, estava começando a viver agora”, afirmou. O velório está previsto para a tarde, na Câmara Municipal de Teixeira de Freitas, e o sepultamento deve ocorrer às 8h de amanhã, no Cemitério Reviver Park. Morte – Endreo não confessou ter agido para matar a namorada, mas se disse "culpado" pela morte de Ana Luiza. "Ele diz que nao foi ele que fez, mas que ele é o culpado. Ele falou uma série de impropérios pra ela, xingou disso, daquilo outro, diminuiu a pessoa dela como mulher, aquele aspecto de violência moral, de violência contra a mulher, extremamente abusivo", contou o delegado Renato Martins, da Delegacia de Homicídios. O corpo dele foi encontrado na cela ontem. Há indícios de que ele usou a própria bermuda para se enforcar. *O nome da consultora foi alterado para preservar identidade.

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