Um pequeno refúgio verde escondido dentro da área urbana de Ladário começa a ganhar uma nova história. Entre árvores, animais silvestres, uma nascente e um pomar com 72 mangueiras, cerca de dois hectares que durante anos permaneceram praticamente esquecidos devem se transformar no Parque Natural Municipal Pérola do Pantanal, novo espaço de preservação, turismo ecológico e memória histórica da cidade. O lugar tem ingredientes pouco comuns para um parque urbano. Além da vegetação e da fauna pantaneiras, guarda uma ligação antiga com a religiosidade. A área já abrigou padres salesianos e foi utilizada como espaço de recolhimento, evangelização e encontros espirituais. É justamente essa combinação de natureza e história que o município pretende recuperar. Atualmente abandonado e vulnerável principalmente aos incêndios, o terreno foi adquirido pela prefeitura em 2012. Na época, a intenção era concentrar ali serviços públicos de atendimento à população, projeto que acabou não saindo do papel. Agora, a proposta é outra: preservar a mata, proteger os recursos hídricos e abrir o espaço para moradores e turistas caminharem, contemplarem a natureza e conhecerem um pouco da história religiosa de Ladário. A criação do parque integra um acordo de compensação ambiental em discussão entre o Ministério Público, o município e a mineradora LHG Mining, relacionado ao passivo provocado pelo transporte de minério de ferro por caminhões dentro da cidade. O investimento previsto é de aproximadamente R$ 5 milhões. Entre as intervenções planejadas está a restauração do antigo prédio ocupado pelos salesianos. A construção deverá receber um centro dedicado à pesquisa científica e à educação ambiental, acrescentando ao parque uma função que vai além do lazer. Natureza com história Para a diretora-presidente da Fundação de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural de Ladário, Ana Cláudia Boabaid, a iniciativa permitirá recuperar uma área hoje degradada e, ao mesmo tempo, reconstruir parte de sua memória. “O prefeito teve a grande visão de proteger os mananciais de água e todo o cinturão verde, hoje depredados, e no conjunto das ações ambientais de preservação vamos também pesquisar a passagem dos padres salesianos pelo lugar e fazer um documentário como parte das atividades que serão desenvolvidas com os visitantes”, explicou. A proposta recebeu um nome diretamente ligado à identidade do município: Parque Natural Municipal Pérola do Pantanal, referência à forma como Ladário é conhecida. A prefeitura abriu consulta pública online, disponível até o dia 20, como parte do processo para instituir, por decreto, uma Unidade de Conservação de Proteção Integral. Paralelamente, o município trabalha na regulamentação e na definição da estrutura necessária para colocar o parque em funcionamento, com apoio do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul). A expectativa é criar o primeiro parque ecológico desse tipo na região. “Estamos protegendo uma área de grande relevância ecológica, histórica e paisagística, contribuindo para a conservação dos nossos recursos hídricos e dos ecossistemas característicos do Pantanal”, afirmou o prefeito Munir Sadeq Ramunieh. Segundo ele, a proposta pretende deixar um patrimônio permanente para a cidade. “Mais que uma obra, representa um legado, ampliando as oportunidades de desenvolvimento sustentável e consolidando a cidade como referência na proteção de um dos patrimônios naturais do mundo”, acrescentou. Trilha no meio do verde O projeto prevê trilha para caminhada em meio à vegetação nativa, sinalização, bancos, lixeiras ecológicas e outros equipamentos destinados a receber visitantes sem comprometer a conservação ambiental. Antes mesmo da implantação da estrutura, a Fundação de Meio Ambiente começou a fazer um inventário da fauna e da flora. Os levantamentos iniciais já apontam presença significativa de pequenos animais e aves, reforçando o potencial da área para atividades de observação da natureza e educação ambiental. A nascente existente no terreno também deverá ganhar proteção especial, assim como o cinturão verde que envolve a propriedade. Com isso, o espaço poderá reunir diferentes experiências em um mesmo passeio: caminhar pela vegetação pantaneira, observar aves e pequenos animais, conhecer o antigo prédio dos salesianos, descobrir a história religiosa do lugar e descansar à sombra de um pomar formado por dezenas de mangueiras. População ajuda a desenhar o parque Antes da criação definitiva da unidade de conservação, os moradores poderão opinar sobre o futuro do espaço. Segundo Ana Cláudia, a consulta pública busca assegurar a participação da sociedade, permitindo que cidadãos, instituições e entidades conheçam o projeto e apresentem sugestões capazes de aperfeiçoá-lo. A documentação referente à proposta foi disponibilizada pela prefeitura para análise da população. Se sair do papel como planejado, o Pérola do Pantanal acrescentará uma nova opção ao roteiro turístico da região de Corumbá e Ladário. Em vez de apenas observar o Pantanal a distância, o visitante poderá entrar em um pequeno fragmento preservado dentro da cidade e encontrar, entre a nascente, as árvores e as antigas paredes de um refúgio religioso, um pedaço da história e da natureza pantaneiras. Um lugar que durante anos esteve abandonado poderá voltar a cumprir sua antiga vocação de refúgio — desta vez, aberto a todos.


