A chegada de um novo El Niño encontra Pantanal e Cerrado com uma proteção natural menor contra períodos extremos de seca. Dados da Coleção 11 do MapBiomas, divulgados nesta quarta-feira (12), mostram que as transformações acumuladas desde 1985 reduziram áreas de vegetação e de inundação justamente em dois biomas presentes em Mato Grosso do Sul. A situação mais evidente aparece no Pantanal. Em quatro décadas, o bioma perdeu cerca de 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados, área próxima ao tamanho da Suíça. A chamada savana alagada, vegetação típica das planícies que passam parte do ano cobertas pelas águas, sofreu redução de 84%. Eram aproximadamente 1,1 milhão de hectares em 1985 e restaram 174 mil hectares em 2025. A redução não significa apenas menos água visível na paisagem. O Pantanal depende da alternância entre cheia e seca para funcionar. A inundação periódica distribui nutrientes, abastece lagoas e áreas úmidas e interfere diretamente na reprodução, alimentação e deslocamento de espécies. Com uma parcela maior da planície permanecendo seca, esse funcionamento fica mais fragilizado. Outro indicador reforça o alerta. Em 2025, a superfície de água do Pantanal ficou 56% abaixo da média histórica calculada entre 1985 e 2025. Foram 679 mil hectares cobertos por água no ano. Apesar de representar recuperação de 34% diante da seca histórica de 2024, todos os meses de 2025 permaneceram abaixo da média. É nesse cenário que um novo episódio de El Niño ganha peso. O levantamento do MapBiomas comparou as mudanças no uso da terra com as chuvas registradas nos períodos mais críticos de eventos anteriores. No Pantanal, o El Niño de 2023 e 2024 coincidiu com forte redução das precipitações, e 2024 foi o ano mais seco da série analisada. No Cerrado, o problema aparece por outra frente. O bioma acumulou perda de 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025. Proporcionalmente, foi a maior redução entre os biomas brasileiros, com queda de 34% da cobertura nativa ao longo do período. O estudo também indica que as secas associadas ao El Niño vêm se tornando mais acentuadas no Cerrado, sobretudo nas áreas que ainda conservam vegetação natural. A transformação acompanha o avanço da produção agropecuária pelo território brasileiro. Em 1985, lavouras e pastagens ocupavam 150,2 milhões de hectares, o equivalente a 18% do País. Quatro décadas depois, chegaram a 273,3 milhões de hectares, ou 32%. Dos 241 milhões de hectares que tiveram alguma mudança de cobertura ou de uso desde 1985, 136 milhões correspondem à conversão de vegetação nativa para agropecuária. O resultado ajuda a explicar por que a queda recente do desmatamento, embora positiva, não elimina a vulnerabilidade acumulada. Em todo o Brasil, a participação da vegetação nativa caiu de 79% para 65% entre 1985 e 2025. Um terço do território nacional passou por pelo menos uma mudança de cobertura ou uso nesse intervalo. No caso pantaneiro, a combinação de menos água, áreas úmidas reduzidas e períodos prolongados de estiagem também favorece incêndios de maior intensidade. A vegetação seca oferece mais combustível ao fogo, enquanto queimadas sucessivas podem dificultar a recuperação da cobertura vegetal e diminuir ainda mais a capacidade de retenção de água.


