De capivaras a obras de arte, Elder faz mágica dobrando papel

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Um pedaço de papel, algumas dobras e uma infinidade de possibilidades. O que para muita gente não passa de um simples barquinho ou avião de papel, para Elder Alves Severino, de 58 anos, virou profissão, empresa e até cinema. Em Campo Grande, o artesão encontrou no origami uma maneira de transformar folhas comuns em esculturas, instalações artísticas e objetos que contam histórias. A paixão começou ainda na escola, atravessou períodos de desemprego e acabou se tornando sua principal atividade profissional. Hoje, ele trabalha com origami contemporâneo, uma vertente que vai muito além das dobraduras que a maioria das pessoas aprendeu na infância. A relação de Elder com o papel começou nas aulas de geometria, quando ainda era estudante. Na época, um professor ensinava os alunos a construir figuras geométricas a partir de recortes e dobraduras. Pouco depois, um livro com modelos tradicionais despertou ainda mais sua curiosidade. “Quando eu estudava, a gente tinha aula de geometria e comecei a aprender formas geométricas que eram cortadas, dobradas, e você montava figuras, os poliedros. Depois apareceu um livro na minha mão sobre dobraduras, com barquinho de papel, balãozinho de São João, cestinho. Então já tinha toda uma coisa que me interessava no papel”, relembra. O interesse permaneceu mesmo quando ele seguiu outros caminhos profissionais. Anos depois, durante um período em que trabalhava em uma ONG ambiental em Mato Grosso, Elder voltou a encontrar nas dobraduras uma maneira de ocupar o tempo. Responsável por uma reserva ecológica localizada em uma serra, precisava permanecer semanas no local. Como havia poucas atividades disponíveis nos momentos de descanso, começou a pedir materiais para oficinas de artesanato. Foi nessa época que conheceu um livro de origami japonês, que apresentou técnicas muito mais elaboradas do que aquelas que conhecia. “A gente ficava lá semanas, porque subia uma serra. Durante o dia e à noite, quando não tinha nada para fazer, começamos a pedir materiais para o pessoal de artesanato. Aí caiu na minha mão um livro de origami e começamos a fazer aquelas formas. Todo mundo se apaixonou. Eu não sabia que era tão variado, que era uma arte mesmo, uma arte do Japão”, conta. O que começou como passatempo acabou se transformando em uma oportunidade de trabalho quando Elder ficou desempregado. Uma amiga percebeu a facilidade que ele tinha com as dobraduras e sugeriu que começasse a ensinar crianças. A ideia deu certo, principalmente pela curiosidade dos pequenos diante da transformação de uma folha em um animal, objeto ou figura. “Ela falava: 'Nossa, Elder, você faz essas dobraduras tão interessantes, será que não daria aula disso?'. Eu pensei que era uma boa ideia. Comecei a dar aula e as crianças ficaram enlouquecidas com aquela transformação, porque é uma coisa meio mágica do papel. Você olha aquele papel e, daqui a pouco, faz umas dobras e transforma em uma figura. Para a criança, isso é ainda mais mágico”, explica. As oficinas abriram caminho para que ele passasse a enxergar o origami não apenas como uma habilidade, mas como uma profissão. Foi então que decidiu apostar de vez no trabalho com papel. Natural de Mato Grosso do Sul, Elder havia passado uma temporada em Mato Grosso antes de retornar ao Estado. Com poucos recursos para começar, pegou R$ 120 emprestados, comprou materiais e iniciou uma pequena atividade que, com o tempo, virou uma empresa formalizada. O aprendizado continuou por meio de cursos, palestras, formações e pesquisas sobre diferentes técnicas. “Eu falei: 'Quer saber? Vou me dedicar exclusivamente ao papel'. Peguei um dinheiro emprestado, eram R$ 120, fui à loja, comprei o material e comecei. Fui tocando o barco, pesquisando, assistindo a palestras e fazendo formações. Hoje eu tenho uma empresa com CNPJ de origami, presto serviços e desenvolvo produtos. Minha profissão é artesão, mas também me considero um designer do papel”, afirma. Mais que dobraduras – O trabalho que Elder desenvolve está atualmente ligado principalmente ao origami decorativo, arquitetônico e conceitual. Em vez de produzir apenas pequenas figuras, ele utiliza cortes, dobras e estruturas geométricas para criar objetos de decoração e instalações capazes de transformar ambientes inteiros. A proposta também envolve elementos culturais e ambientais, especialmente aqueles relacionados à identidade sul-mato-grossense. “É importante destacar que o origami não é uma coisa só para criança. A gente tem muito aquela ideia de que é uma atividade infantil, mas ele é muito mais extenso. Eu trabalho com o origami de vanguarda, que é chamado de origami arquitetônico. Com cortes e dobras, você consegue fazer estruturas no papel. Meu foco principal é o origami contemporâneo, que também pode ser uma linguagem artística”, explica. Um dos trabalhos mais representativos dessa proposta é uma arara feita com dobraduras, galhos reaproveitados e elementos da natureza. A peça, que se tornou símbolo de sua empresa, reúne características que Elder associa a Campo Grande. Para construí-la, utilizou a imagem das araras que fazem parte da paisagem urbana, resíduos de podas de árvores e referências à vegetação local. A escolha das cores também foi pensada para representar a Capital. “Eu peguei essa arara, que é o símbolo da minha empresa, e fiz um trabalho baseado na cidade de Campo Grande. Como somos uma cidade das árvores, temos muitos resíduos de podas, então faço esse reaproveitamento. Também utilizei referências às sementes, porque as araras ajudam a espalhá-las pela cidade. “ A cor vermelha lembra a nossa terra, a Cidade Morena. Peguei esses conceitos e transformei em um objeto”, detalha. A criação foi selecionada para integrar o acervo de artesanato sul-mato-grossense da Fundação de Cultura, segundo o artista. A ligação entre papel, natureza e identidade regional também levou Elder a trabalhar com empresas do setor de celulose. Ele conta que já realizou oficinas e desenvolveu objetos para a Arauco e a Suzano, utilizando o origami como forma de apresentar possibilidades criativas do material. Para o artesão, a presença da indústria de celulose em Mato Grosso do Sul também abre espaço para aproximar as pessoas de uma arte que tem o papel como matéria-prima. “Nós vivemos na terra da celulose. Então aconteceu um fenômeno interessante: as empresas começaram a me procurar para dar oficinas de origami, criar objetos e caixas. Eu trabalho exatamente com o material que vem dessa cadeia produtiva. E acho importante mostrar que o papel não serve apenas para escrever ou imprimir. Ele pode ser transformado em uma obra de arte”, afirma. Origami no cinema – Entre os projetos que mais marcaram sua trajetória está a participação no curta-metragem de animação Cinzas do Pantanal, produzido com a técnica de stop motion. A obra utiliza figuras feitas de papel para abordar as queimadas no bioma e foi desenvolvida com recursos de incentivo cultural. Com aproximadamente três minutos de duração, o filme exigiu um trabalho minucioso, já que os movimentos dos personagens precisavam ser registrados quadro a quadro. “Foi incrível, porque teve uma repercussão muito grande. A gente ganhou prêmio de público e de júri. Foi uma das experiências mais importantes que tive com o audiovisual. Eu não sabia que era tão difícil fazer stop motion. São vários quadros, frame por frame, segundo por segundo. Para fazer aqueles três minutos, são horas de trabalho”, recorda. Segundo Elder, a produção recebeu reconhecimento em uma premiação de animação realizada em Curitiba. A experiência mostrou ao artesão que as dobraduras também poderiam ultrapassar os limites das exposições e oficinas. No cinema, as figuras de papel ganharam movimento e ajudaram a contar uma história ambiental capaz de alcançar crianças e adultos. Elder considera esse um dos momentos mais importantes de sua carreira, justamente por permitir que o origami dialogasse com outra linguagem artística. “A gente precisava fazer um trabalho sobre as queimadas no Pantanal, com uma linguagem que tivesse impacto e que servisse tanto para criança quanto para adulto. O papel tinha essa característica interessante. Foi uma novidade, uma coisa criativa, porque conseguimos trabalhar com diferentes linguagens. Hoje eu vejo o origami ligado ao artesanato contemporâneo, que tem toda essa possibilidade de criação”, afirma. Além das produções artísticas, Elder também dedica parte do trabalho à formação de novos interessados. Ele conta que desenvolveu oficinas em escolas do Sesi de Mato Grosso do Sul, apresentando as dobraduras como ferramenta de aprendizagem de geometria e outros conceitos. Também participou de projetos de decoração e instalações artísticas em eventos da instituição. Para ele, o papel pode ajudar a compreender desde figuras geométricas até estruturas utilizadas em áreas como arquitetura e engenharia. “O origami trabalha com geometria e até com conceitos de aerodinâmica. Existem técnicas de dobradura estudadas para estruturas que precisam ocupar pouco espaço e depois se expandir, como painéis solares de satélites. A NASA também pesquisa aplicações dessas estruturas. Então não é apenas fazer barquinho e avião. É uma técnica que tem relação com matemática, física, tecnologia e muitas outras áreas”, explica. Depois de transformar uma habilidade aprendida na infância em fonte de renda, Elder acredita que o maior resultado de sua trajetória é poder compartilhar o conhecimento com outras pessoas. Entre peças decorativas, oficinas, instalações e produções audiovisuais, o artesão segue explorando novas maneiras de trabalhar com o papel. Para ele, o encanto está justamente na simplicidade do material e na surpresa que surge a cada dobra. “Toda a minha vida foi construída em cima disso. Posso dizer que sou muito feliz porque, ao mesmo tempo em que trabalho com aquilo de que gosto, possibilito que outras pessoas tenham esse aprendizado e até se profissionalizem. Quando você pega uma folha de papel, é quase instintivo querer dobrar. A gente tem um vínculo com o papel que é uma coisa maravilhosa. E o origami é uma arte apaixonante”, finaliza. Quem quiser conhecer o trabalho de Elder, acompanhar suas criações ou contratá-lo para oficinas e outros projetos pode entrar em contato pelo Instagram, no perfil @elderorigami.

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