Maquete revela palácio que MS planejou, mas nunca construiu

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Ao lado de uma maquete branca, Valter Cortez posa para uma foto. O modelo em miniatura reproduz o Palácio do Governo que ele ajudou a projetar no início dos anos 1980, um edifício planejado para o Parque dos Poderes, mas que nunca foi construído. Foi durante uma exposição de maquetes na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) que o arquiteto viu o projeto representado em escala reduzida. Nascido em Campo Grande e formado pela Faculdade de Arquitetura Santa Úrsula, no Rio de Janeiro (RJ), Valter é arquiteto e urbanista e, atualmente, preside o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul. Feita pelos universitários Apollo de Arruda e Bianca Caldas, a maquete integrou a disciplina Construir e Habitar IV, ministrada pelo professor doutor Júlio Bottega. A exposição reuniu modelos de edifícios do Parque dos Poderes e trouxe novamente à vista projetos que marcaram a formação daquele conjunto, inclusive os que ficaram apenas no papel. Segundo Valter, a proposta era criar um prédio que representasse a natureza de Mato Grosso do Sul e se integrasse à paisagem do parque. Essa intenção aparece em uma construção de linhas horizontais, áreas abertas e concreto aparente. Na revista Projeto, o memorial descritivo apresenta dois blocos retangulares, de dimensões diferentes, sobrepostos em forma de cruz. O volume maior, com dois pavimentos, concentraria parte das atividades administrativas e permitiria mudanças na organização interna dos espaços. Sobre ele, um terceiro pavimento transversal abrigaria a Governadoria, o gabinete do governador, assessorias e áreas para recepção e cerimônias. No térreo, a proposta previa áreas abertas, com pilares estruturais e espaços para circulação, convivência e exposição de obras de arte. O subsolo seria destinado à garagem e aos serviços. Os acessos também seriam separados: o governador teria uma entrada subterrânea exclusiva, enquanto funcionários e público chegariam por escadas e elevadores próprios. Jardins, floreiras, um espelho d’água e cascatas completariam o conjunto. Concreto aparente e vidro seriam os materiais predominantes. A cobertura de concreto também funcionaria como proteção para as áreas envidraçadas, protegendo-as da incidência direta do sol. Além de Valter Cortez, o projeto foi assinado por Fayez José Rizk e Lauro Veloso Malaquias. Publicado na revista Projeto em 1982, o memorial descrevia o palácio como um “marco expressivo, símbolo do novo Estado”, criado em 1977. O projeto havia sido formalizado no ano anterior e previa uma área na extremidade oposta ao Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo – Palácio da Cultura, com acesso pela Avenida Afonso Pena. Já em 1983, oito blocos de secretarias estavam concluídos no Parque dos Poderes. O concurso público foi realizado em 1982, durante o governo de Pedro Pedrossian. Segundo Valter, a equipe vencedora levou cerca de 6 meses para desenvolver o projeto. Na época, os desenhos eram feitos à mão, “com umas canetas bico de pena”, e era preciso dominar técnicas e macetes para usá-las. Segundo ele, os estudos de forma e volume exigiam sucessivas versões. Valter afirma que o projeto foi contratado e pago, mas a obra não avançou. O governo já havia atendido à necessidade imediata de instalar a Governadoria em um prédio inicialmente destinado a uma secretaria. A construção de uma sede própria, então, ficou para depois. Sem se lembrar da área total ou do custo estimado, o arquiteto explica que o projeto exigiria cuidado na execução. Os grandes vãos entre pilares, a climatização e o uso de concreto aparente demandariam atenção à estrutura, às formas e ao acabamento. Para ele, era um projeto refinado, com volumetria harmoniosa e integrada à paisagem. Ver a maquete trouxe de volta a frustração de não acompanhar a obra construída. Para Valter, a satisfação de quem projeta é ver o edifício pronto e em uso. “Dá uma certa frustração, dá”, disse. Ainda assim, afirmou compreender que o governo tinha outras necessidades imediatas. A sede e seu significado – A história do palácio integra uma pesquisa conduzida por Júlio Bottega, que é coordenador do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFMS. Em parceria com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e pesquisadores de outras áreas, o grupo busca reconstruir a história dos edifícios, da paisagem e do traçado urbano do Parque dos Poderes. O estudo poderá contribuir para a discussão sobre o reconhecimento do conjunto como patrimônio nacional, mas ainda está em fase inicial. Para Bottega, uma sede própria do governo teria significado simbólico e institucional. “Todos os estados têm os seus palácios de governo”, afirmou. Em Mato Grosso do Sul, a Governadoria funciona em um dos prédios de secretaria, cujo modelo se repete no parque. Na avaliação do professor, uma sede própria daria destaque à instituição e à paisagem da sede administrativa. “Nessa perspectiva, eu entendo que realmente faz falta.” A pesquisa também procura compreender por que o palácio não foi construído. Bottega ressalva que ainda não há comprovação documental para explicar a decisão. A hipótese de que a obra tenha perdido prioridade diante de outras necessidades do Estado ou pudesse enfrentar maior escrutínio público é, segundo ele, uma interpretação pessoal, ainda não comprovada. No projeto original do Parque dos Poderes, estavam previstos dez edifícios. Nove foram construídos; a Governadoria foi a única que não saiu do papel.

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