Até fungicida considerado seguro pode prejudicar abelhas, aponta pesquisa

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Uma pesquisa conduzida pela Embrapa Meio Ambiente trouxe um novo olhar sobre os impactos dos defensivos agrícolas nas abelhas. O estudo revelou que fungicidas — tanto químicos quanto biológicos — podem interferir diretamente nos microrganismos que garantem o desenvolvimento das larvas da abelha sem ferrão Scaptotrigona depilis. Esses microrganismos vivem em associação com as abelhas e desempenham papel fundamental na digestão e no fornecimento de nutrientes. Ou seja, são “aliados invisíveis” que sustentam a saúde das colônias. Impacto além do óbvio Enquanto os efeitos de inseticidas já são amplamente conhecidos, o estudo mostra que os fungicidas, muitas vezes vistos como menos agressivos, também podem causar desequilíbrios importantes. A pesquisadora Simone Prado explica que os testes analisaram diferentes concentrações de dois tipos de fungicidas — um químico e outro biológico — observando o comportamento dos fungos simbiontes no alimento das larvas. Os cientistas acompanharam o desenvolvimento desses fungos por meio da contagem de esporos e análises moleculares, focando em duas espécies-chave: Monascus ruber e Zygosaccharomyces. Quando o remédio vira problema Os resultados mostraram que o fungicida biológico teve comportamento variável. Em doses intermediárias, chegou a estimular o crescimento dos fungos benéficos, favorecendo o ambiente necessário ao desenvolvimento das larvas. Por outro lado, em concentrações mais altas, o mesmo produto passou a reduzir esse crescimento — sinal de que até alternativas consideradas mais sustentáveis exigem uso controlado. Já o fungicida químico apresentou um efeito mais drástico. Em níveis iguais ou superiores a 2 g/L, houve bloqueio total da formação de esporos, eliminando os fungos simbiontes. As análises confirmaram a ausência completa desses microrganismos nas maiores doses testadas. Risco silencioso Apesar de não causar morte imediata das abelhas, o impacto pode ser profundo. Ao afetar os fungos que participam da alimentação das larvas, os produtos comprometem processos essenciais para a sobrevivência e manutenção das colônias. Segundo a pesquisadora Jenifer Ramos, as doses utilizadas no estudo foram baseadas em recomendações reais de uso no campo, o que reforça a relevância dos resultados para a agricultura. Caminho para uma agricultura mais segura O pesquisador Cristiano Menezes destaca que os testes atuais de defensivos ainda são limitados, pois consideram principalmente abelhas exóticas. Para ele, é essencial incluir espécies nativas nas avaliações. Além disso, ele defende que fungicidas e produtos biológicos também passem por testes obrigatórios com abelhas — exigência hoje restrita a inseticidas químicos. Equilíbrio em jogo Os resultados reforçam a necessidade de maior cuidado no uso de defensivos agrícolas. Ao afetar microrganismos fundamentais, esses produtos podem comprometer a saúde das abelhas e, consequentemente, os serviços de polinização — base para a produção de alimentos e para o equilíbrio dos ecossistemas. A pesquisa também aponta um caminho: alternativas biológicas, quando usadas de forma adequada, tendem a ser mais compatíveis com a conservação dos polinizadores. Ainda assim, o recado é claro — mesmo soluções consideradas “mais seguras” precisam de manejo responsável.

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