Quem sobra quando ninguém está olhando
Caro(a) conviva, Há um medo que não confessamos nem a nós mesmos: o medo de nos olharmos no espelho em um dia comum, sem farda, sem agenda, sem ninguém esperando nada de nós, e não reconhecermos quem está do outro lado. Machado de Assis já sabia disso. Em “O Espelho”, ele conta a história de um jovem alferes da Guarda Nacional que, sozinho numa fazenda, descobre algo perturbador: sem a farda que lhe dava posto e função, sua própria imagem começa a esmaecer diante do espelho. Fardado, ele está inteiro. Despido do papel, ele é quase névoa, se esvai, se torna diáfano. Machado chama isso de teoria das duas almas, a exterior, que o mundo vê e reconhece, e a interior, que só existe quando ninguém está olhando. O drama do conto é que o rapaz descobre, aterrorizado, que sabe muito bem cultivar a primeira e quase nada da segunda. Duzentos anos depois, trocamos a farda de alferes por outras fardas, mais discretas, mas igualmente absolutas. O crachá, a agenda lotada, o cargo, a notificação que pi..
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