Existe “inteligência” artificial? Para uma resposta a essa questão, numa época em que a “inteligência” artificial vem sendo considerada sinônimo de inovação e produtividade, vale recorrer à História da Ciência para lembrar de alguns desenvolvimentos de uma ambição semelhante e mais antiga, a de criação de vida artificial pelo homem. Em relatos mitológicos desenha-se um desejo humano transcendente: ser como um deus, capaz de criar seres, não à maneira tradicional da geração, mas a partir de quase nada. Conta o poeta grego Hesíodo (século 8 a.C.), na Teogonia, as agruras do titã Prometeu. Criador da raça humana, talhada em barro, Prometeu insufla em seus “filhos”, junto com a vida, a coragem do leão, a fidelidade do cavalo, a força do touro, a esperteza da raposa, a avidez do lobo. Mas, para além de atributos animais, deu-lhes uma dádiva muito especial: o fogo, roubado aos deuses olímpicos, ousadia pela qual amargará o tormento diário do fígado devorado, preso a grilhões no Cáucaso. Entremeando dor e alegria, com o fogo se inicia a civilização e a sociabilidade humanas – o fogo acende a consciência e sua chama ilumina o intelecto. Uma variação do tema aparece na história de Pigmalião, que esculpe em mármore uma companheira, Galateia. Por graça da deusa Afrodite, movida pelo amor do escultor à estátua, esta ganha vida – como relata o poeta romano Ovídio (43 a.C.-17 d.C.) no livro X das Metamorfoses. Também o mítico Dédalo teria inventado estátuas móveis para guardar sua famosa construção, o labirinto na Ilha de Creta – e talvez essa seja uma origem para a lenda do Minotauro, que seria uma de tais estátuas, criada para inspirar terror aos transeuntes. Técnicos renomados da Antiguidade frequentemente foram construtores de autômatos, como, por exemplo, Ctesíbio de Alexandria (século 3 a.C.), Fílon de Bizâncio (século 2 a.C.) e Heron de Alexandria (século 1 a.C.). Ao primeiro destes é imputada a invenção da clepsidra – e se a água escorrendo, à maneira da correnteza dos rios, pode ser tomada como metáfora do tempo, a clepsidra manifesta o desejo humano de “controlar” o tempo, de alguma maneira. A ambição de criar movimento e ilusão promoveu no homem antigo um contato com a magia e o divino. Assim surgiu primeiramente a cópia, o simulacro (no sentido original de imagem de uma divindade), e depois o autômato, aquele que se mexe por si próprio. Aliás, a definição etimológica continua válida por longo tempo, sendo a adotada na Enciclopédia (século 18) de Diderot e D’Alembert: autômato é “a máquina que traz em si o princípio de seu próprio movimento”. No auge do Iluminismo, a construção de autômatos se tornou atividade de prestígio, e a técnica permitiu criar modelos bastante sofisticados, especialmente os desenvolvidos na oficina do francês Jacques de Vaucanson (1709-1782). São célebres seus autômatos musicais, o flautista e o tamborileiro, e ainda seu pato, de 1738, capaz de andar, “deglutir” alimentos e “expeli-los” mecanicamente. Vaucanson é um nome associado na história da tecnologia ao aperfeiçoamento de um invento de importantes consequências sociais e econômicas: um tear automático, criado inicialmente (1756) para a fabricação de seda e que, graças à sua eficiência, garantiu a supremacia francesa na indústria têxtil europeia. A coleção de mecanismos e desenhos técnicos doados por Vaucanson serviu de base para a criação em 1789 do influente Conservatório Nacional de Artes e Ofícios em Paris. Foram os teares automáticos que viabilizaram a primeira fábrica com linha de produção “moderna”, a têxtil. Seu aperfeiçoamento pôde ser realizado com base numa programação binária (“sim” e “não”), com cartões perfurados, inventados pelo francês Joseph-Marie Jacquard (1752-1834), por sua vez um melhoramento de técnicas que datam por volta de 1730 na França. O próximo salto tecnológico notável na direção da automatização de processos se deu cerca de 150 anos após, já no início do século 20: o sistema telefônico, quando foram introduzidas as centrais automáticas de comutação (sem telefonista), que são exemplos de automatismo integral em máquinas de grande porte. O polímata Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), retrabalhando uma lenda baseada em personagem que viveu durante a Renascença alemã, apresentou Fausto, um estudioso irrequieto, em sua famosa obra de mesmo nome. Na primeira parte, Fausto ecoa as ideias do naturalista alemão Paracelso (1493-1541), que procurou a origem da vida humana numa mistura de sêmen e sangue, e será Wagner, o discípulo de Fausto, quem logrará gerar o “verdadeiro” autômato, o homúnculo, numa redoma de laboratório. O homúnculo tem sua origem nos laboratórios de alquimia, o que evidencia a insuficiência para Goethe de uma solução meramente mecanicista para insuflar o sopro vital nos seres. É intenso na época o desejo de construir um autômato “vivo”. Entre os diversos pensadores que se envolveram na polêmica do autômato, destaca-se o holandês Baruch Espinosa (1632-1677), para quem o pensamento humano é o único autômato verdadeiro, ao contrário dos autômatos artificiais. Só o pensamento se move a si mesmo, isto é, possui a totalidade do atributo de liberdade, o que não sucederia com as máquinas e criações artificiais. Com a intensificação das pesquisas sobre eletricidade, especialmente a partir das experiências (em torno de 1750) de Benjamin Franklin, começou um novo período na história da tecnologia, em que o predomínio da mecânica foi lentamente declinando, e as máquinas elétricas vão aos poucos se impondo. Quando, em 1818, a jovem inglesa Mary Shelley criou um romance sombrio, misturando o estilo “gótico” com a ficção científica, uma provável inspiração para o protótipo do seu cientista foi o “Prometeu moderno”, alcunha pela qual Franklin era conhecido. Surgiu assim a figura do Dr. Frankenstein, que se vale do auxílio de poderosas descargas voltaicas e dá vida ao conhecido monstro, figura costurada a partir de pedaços de corpos humanos. O que detona a fúria vingadora da criatura é que Frankenstein se recusa terminantemente a lhe construir uma companheira da mesma espécie – expressando a angústia da solidão e da consciência do monstro de que não passa de uma criação artificial. Nesse breve apanhado de criações e motivações da linhagem literária dos autômatos, poderia ser incluída a peça teatral do tcheco Karel Tchapek (1890-1938) intitulada R.U.R. (Os robôs universais de Rossum), de 1920. Nesta, um ateu, Rossum, se propõe a substituir Deus com sua invenção da “máquina de trabalhar inteligente”. Para designar essa máquina, o autor criou um neologismo, valendo-se da palavra eslava para trabalho (“robota”). Seu sobrinho produz em série e comercializa os robôs, convencido de que assim contribuirá para o progresso e bem-estar da humanidade. Dez anos após, os construtores perderam completamente o controle, e os robôs, que terminaram por substituir os humanos também na função militar de soldados, estão em vias de aniquilar a humanidade. Trata-se de uma geração de robôs saídos de fábrica com modificações introduzidas por um biotecnólogo: bem semelhantes aos homens e com alta irritabilidade. A capacidade das máquinas de experimentar emoções se transforma em ódio contra seus fabricantes. Na revolta, acabam sendo aniquilados todos os seres humanos, exceto o supervisor Alquist – mas os robôs por seu turno também se sentem perdidos, porque não têm como se reproduzir. Alquist ordena que o robô Primus faça a vivissecção do “robô feminino” Helena, mas Primus inesperadamente se oferece para o sacrifício no lugar de Helena, e esta, por sua vez, insiste para que a experiência seja feita nela. A peça acaba com o regozijo do último humano porque o amor entre as duas máquinas fez renascer o milagre da vida – as máquinas enfim se humanizaram – como de certa forma acontece no final do filme Blade runner – O caçador de androides. A vida, diferentemente da planificação automática. passa pelo imprevisto – mas não através do acaso cego. No decorrer da evolução, há o mistério de que a célula viva não enxerga a sua finalidade, que é transcendida pela do tecido e a deste pela do órgão. A enorme complexidade do ser integral resultante realiza o que se chama de sistema não linear, em que o todo é maior do que a soma das partes. A “vida” artificial poderia sintetizar alguma parte do todo? Em princípio sim, mas o homem não sabe como, a partir destas partes, se chega ao coroamento da construção desse todo, que é a mente. Voltando à questão inicial, o paradigma das experiências envolvendo inteligência artificial foi o do computador moderno: a chamada “máquina de Turing”, proposta em 1937 num ensaio do matemático inglês Alan Turing (1912-1954). Nele se pretendia demonstrar a possibilidade de uma máquina resolver (“calcular”) qualquer problema de uma dada classe, desde que o mesmo fosse convertível num enunciado em forma de estados discretos bem definidos da máquina. O dispositivo de Turing idealiza o processo em uma “fita” infinita que, a cada “passo” dessa máquina, através de um algoritmo dado, evolui para o estado seguinte, isto é, “calcula”. O golpe maior nas pretensões filosóficas desse formalismo foi cabalmente assentado pelo matemático austríaco Kurt Gödel (1906-1978). Num teorema demonstrado em 1931, ele provou que um sistema axiomático não pode ser ao mesmo tempo completo e sem contradição. Demonstrou assim que a formalização completa de uma teoria não é logicamente possível, pois levará em algum momento a um problema indecidível com base nas regras adotadas. A aritmética é um exemplo de sistema axiomático, isto é, de regras fechadas, a máquina de Turing é aritmética e conduz a situações indecidíveis, como qualquer algoritmo. Como exemplos de indecisão, a fita de Turing iria “engasgar”, sem saber como prosseguir, caso encontrasse um comando tal como “divida um número qualquer por zero” ou então “calcule o valor exato do número pi”. Não se pretende aqui reproduzir o complexo e brilhante argumento de Gödel para concluir que todo sistema formal chega num ponto em que trava, pois não consegue decidir o que fazer (para uma explicação mais completa, vide A prova de Gödel, de Ernest Nagel e James Newman, que a USP coeditou). Para continuar é necessário criar uma nova instrução, não contida no repertório anterior, que valerá até o próximo impasse. Os filósofos e matemáticos formalistas e reducionistas vêm tentando minimizar o alcance do teorema de Gödel ou até negar sua validade, para poderem insistir na equivalência entre máquina e cérebro humano. Nos programas de inteligência artificial, difundiram-se, desde o último quartel do século 20, os chamados “sistemas especialistas”, cujo nome deriva da reunião dos conhecimentos de diversos especialistas num determinado assunto, para formar uma base de dados. O conjunto de programas assim construído é habilitado a “decidir”, para um dado problema, qual a melhor solução. Não passa, portanto, de um algoritmo mais sofisticado, porém não menos previsível. A sua grande rapidez e capacidade de armazenamento podem ser utilizadas para “aprender”, o que neste caso significa ter uma base maior de dados para decidir – até um ponto indecidível, somente superável por uma nova instrução externa à máquina. Criou-se uma divisão entre os adeptos desse recurso: a “inteligência artificial forte”, que acredita que estamos cada vez mais perto de um futuro em que a máquina terá não somente um cérebro, mas uma mente criadora, caso em que se configuraria uma nova “espécie”, capaz de ameaçar e dominar o homem. E a “inteligência artificial fraca”, que aposta que isso não acontecerá e será apenas uma ferramenta para fazer o que já faz hoje: respostas rápidas sem criatividade dentro de um vasto arsenal de conhecimentos, servindo como um auxiliar útil para o trabalho humano. Pode-se objetar à “inteligência” artificial que ela não passa de um simulacro do cérebro, pois a mente humana não é apenas uma simples rede neural, de neurônios e sinapses. A mente tem uma capacidade desenvolvida ao longo da evolução que a inteligência artificial não consegue imitar: a criatividade. É a mente que, num impasse como o descrito por Gödel para todo sistema axiomatizado, é capaz de mudar a regra do jogo e instituir novas regras, tornando operacional a decisão, mesmo que essas regras sejam contraditórias com as antigas. A mente é um sistema aberto e ilimitado, infinitamente, que não pode ser contida em algoritmos fechados. A criatividade é verificada em todas as atividades humanas, desde as mais cotidianas até as grandes criações da mente, que são a arte e a ciência. A máquina consegue, por exemplo, emular e compor música no estilo de Bach ou Mozart, mas lhe falta aquele dom da novidade, pela qual a música original não segue exatamente uma receita, mas surpreende ao dar passos inesperados. Em conclusão, à máquina que é o computador falta o reflexionar heurístico, a formação própria de regras que levem a novos conhecimentos, como um Eldorado que não se alcança, mas cuja busca leva ao desbravamento de universos desconhecidos. (*) Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP


