Durante quatro anos, a empresária Bianca Peixoto Lupoli, de 45 anos, conviveu com cólicas incapacitantes, hemorragias frequentes e uma barriga tão inchada que parecia a de uma gestante de quatro meses. Segundo ela, a rotina era marcada por sangramentos tão intensos que, em alguns dias, precisava usar fraldas geriátricas para conter o fluxo. Nesse período, passou por diversos médicos, realizou exames e recebeu diferentes explicações para os sintomas, mas nenhuma delas traduzia a real dimensão do problema. "Eu vivia passando vergonha. Muitas vezes precisava ir embora de um compromisso porque o sangramento vinha de repente, com muitos coágulos. Passei quatro anos assim, achando que não tinha solução", lembra. Bianca já sabia que tinha um mioma uterino, mas as ultrassonografias não conseguiam identificar com precisão sua localização e tamanho. Os exames apenas indicavam que o útero estava aumentado, enquanto os sintomas se agravavam. Além das dores intensas durante a menstruação, ela passou a sentir falta de ar, provocada pela compressão exercida pelo mioma sobre a caixa torácica. O sangramento constante também levou ao desenvolvimento de anemia, exigindo reposição de ferro por comprimidos e aplicações intravenosas. A busca por respostas mudou quando uma endocrinologista solicitou uma ressonância magnética. O exame revelou um mioma volumoso localizado atrás do útero e permitiu compreender a complexidade do caso, algo que não havia sido identificado nas ultrassonografias. Após o diagnóstico, Bianca recebeu a indicação de uma cirurgia aberta, semelhante a uma cesariana, com uma grande incisão abdominal e recuperação mais prolongada. Insegura com a perspectiva do procedimento, decidiu continuar procurando alternativas. Foi então que recebeu a orientação do pai, médico, para buscar um especialista em cirurgia robótica, decisão que mudou o rumo do tratamento. Durante a cirurgia, os médicos retiraram um mioma de aproximadamente 10 centímetros e um útero que pesava cerca de um quilo, em decorrência do aumento provocado pelas doenças. O procedimento revelou ainda problemas que a paciente desconhecia. Além do mioma, Bianca também apresentava adenomiose e endometriose, com focos de sangramento interno, inclusive próximos ao ovário. "Meu diagnóstico era um mioma enorme, mas saí da cirurgia sabendo que tinha outras doenças que ninguém havia descoberto. As pessoas precisam entender que não é normal viver com dor o tempo todo", afirma. Para ela, as mulheres precisam buscar informação e investigar sintomas persistentes. A recuperação também surpreendeu a paciente. Ela conta que se livrou das dores e dos sangramentos logo após a cirurgia, recebeu alta no dia seguinte ao procedimento e, quatro dias depois, já dirigia novamente. O principal desconforto no pós-operatório foi causado pelo gás utilizado durante a cirurgia, um efeito esperado em procedimentos minimamente invasivos. "A cirurgia robótica devolveu a minha vida. Hoje olho para trás e penso em quanto tempo perdi convivendo com uma situação que eu achava que precisava suportar", afirma Bianca, que realizou o procedimento há dois meses. Tecnologia amplia tratamento – Segundo o ginecologista Guilherme Shiraishi, responsável pelo tratamento de Bianca, a cirurgia robótica amplia as possibilidades terapêuticas para mulheres com doenças ginecológicas complexas. A tecnologia tem sido empregada principalmente em casos como endometriose, miomas uterinos, cirurgias reconstrutivas e alguns tumores ginecológicos, permitindo procedimentos mais precisos e menos invasivos. Apesar do nome, o médico explica que o robô não realiza a cirurgia de forma autônoma. Todos os movimentos são controlados pelo cirurgião, que opera o equipamento por meio de um console, com maior precisão e estabilidade. Segundo Shiraishi, além da precisão, a cirurgia robótica tende a proporcionar menor sangramento, menos dor no pós-operatório e recuperação mais rápida em comparação às cirurgias convencionais, desde que haja indicação para esse tipo de procedimento. O especialista ressalta, porém, que a tecnologia não substitui todas as cirurgias ginecológicas e que a escolha da técnica deve ser individualizada. Os maiores benefícios costumam ser observados em casos mais complexos, como endometriose profunda, miomas volumosos, cirurgias reconstrutivas e algumas doenças ginecológicas oncológicas. "O mais importante é indicar a melhor técnica para cada paciente, e não a mesma tecnologia para todas", resume. Outro benefício apontado pelo médico é a possibilidade de preservar estruturas importantes do sistema reprodutivo em mulheres que ainda desejam engravidar. Em muitos casos de endometriose e miomas, a precisão da cirurgia permite retirar apenas as áreas comprometidas, reduzindo lesões em tecidos saudáveis e aumentando as chances de preservação da fertilidade. Dor intensa não é normal – Para Shiraishi, um dos principais desafios ainda é o diagnóstico tardio. Muitas mulheres convivem durante anos com cólicas intensas, dor durante as relações sexuais e sangramentos excessivos acreditando que esses sintomas fazem parte da vida reprodutiva. O médico reforça que essas manifestações devem sempre ser investigadas por um especialista. "O diagnóstico precoce faz toda a diferença. Quanto antes identificamos doenças como endometriose e miomas, maiores são as chances de controlar os sintomas, preservar órgãos, proteger a fertilidade e evitar que o quadro se torne mais complexo”, explica. Evento – A cirurgia robótica será um dos temas da Materne 2026, feira gratuita voltada à gestação, maternidade, primeira infância e saúde da mulher, que será realizada nos dias 15 e 16 de agosto, em Campo Grande. O evento reunirá especialistas de diversas áreas para palestras, cursos e rodas de conversa sobre fertilidade, gestação de risco, parto, amamentação, puerpério, maternidade atípica e desenvolvimento infantil. A programação completa, os horários das atividades e as inscrições gratuitas estão disponíveis no site www.materne.com.br . Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .


