“É preciso realinhar alguns pontos”, diz Nelsinho sobre relação com o Planalto

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Na última semana, em um intervalo de menos de 24 horas, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofreu duas derrotas políticas de forte impacto no Congresso Nacional, ampliando a tensão entre o Palácio do Planalto e o Parlamento em um momento sensível, a seis meses das eleições. Na quinta-feira (30), deputados e senadores derrubaram o veto presidencial ao chamado PL da Dosimetria, projeto que prevê a redução de penas e do tempo de regime fechado para condenados por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023. O texto havia sido aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado em dezembro de 2025, mas foi vetado integralmente por Lula. No dia anterior, quarta-feira (29), o Senado rejeitou a indicação do Advogado-Geral da União, Jorge Messias, para ocupar uma vaga de ministro do STF (Supremo Tribunal Federal). A rejeição de uma indicação presidencial para a Corte não acontecia havia 132 anos, mantendo a vaga aberta e evidenciando o desgaste na articulação política do governo federal. Diante desse cenário, a avaliação é de que a relação entre Executivo e Legislativo precisará passar por um novo ajuste para evitar o agravamento da crise e garantir a tramitação de pautas estratégicas para o governo ainda neste ano, como a proposta do fim da escala 6×1 e a PEC da Segurança Pública. Durante participação na 39ª edição do Undokai, realizada neste domingo (3), na Associação Nipo Brasileira, em Campo Grande, o senador Nelsinho Trad (PSD), que votou contra a indicação de Jorge Messias ao STF e também pela derrubada do veto presidencial no PL da Dosimetria, avaliou que o momento exige recomposição política entre os poderes. “Olha, toda vez que se tem uma temperatura mais acalorada no Congresso, isso demonstra que é preciso realinhar alguns pontos. O governo tem que procurar ver o que fazer para ter tranquilidade na aprovação dos seus projetos. Nós estamos em um ano eleitoral, onde os conflitos aumentam, onde há maior intensidade nos discursos, ainda mais em um Brasil polarizado, com esquerda e direita bem definidas”, afirmou. Para o senador sul-mato-grossense, apesar da intensificação dos embates políticos, o principal desafio é evitar que o país fique paralisado por disputas institucionais. “Eu digo para você: o importante é o Brasil não parar nessa discussão. Que o país possa avançar nas pautas importantes e que as entregas cheguem aos estados e aos municípios”, disse. A preocupação no Congresso é que o desgaste entre governo e parlamentares comprometa o avanço de propostas consideradas prioritárias pelo Planalto e, ao mesmo tempo, abra espaço para retaliações políticas no segundo semestre, como a aprovação de pautas-bomba com forte impacto fiscal e administrativo. Entre os temas que prometem maior tensão está a discussão sobre a Proposta de Emenda à Constituição que trata do fim da escala 6×1, tema que deve ganhar força já nas próximas semanas e que envolve diretamente trabalhadores, empregadores e o governo federal. Para Nelsinho Trad, a tramitação será longa e inevitavelmente influenciada pelo ambiente eleitoral. “A PEC tem um longo trajeto até ser aprovada. São várias sessões na Câmara, depois vai para o Senado, com outras tantas etapas. Em um ano eleitoral, essa discussão acaba sendo contaminada pelo viés político. É algo que exige discernimento, com um debate que coloque na mesma mesa trabalhadores e empresários, que geram empregos, para que o próprio governo encontre uma medida mitigatória”, pontuou. Segundo ele, qualquer mudança precisa preservar tanto o direito ao descanso quanto a sustentabilidade de quem emprega. “A ideia é que quem gera emprego não seja prejudicado, mas que o trabalhador, que precisa de mais um dia de descanso, também seja contemplado. É assim que eu penso.” O senador afirmou que, neste primeiro momento, pretende acompanhar a tramitação da proposta na Câmara dos Deputados antes de avaliar a necessidade de apresentar emendas no Senado. “Eu vou acompanhar, porque primeiro isso passa pela Câmara. Como a tramitação deve começar na semana que vem, quero ver como o texto vem de lá para cá para avaliar se será necessário apresentar alguma emenda.” Médico de formação, Nelsinho também destacou que o debate precisa considerar os efeitos econômicos de uma eventual mudança sem compensações para o setor produtivo. “Eu sou médico do trabalho e sei o quanto é importante para o trabalhador ter mais descanso. Mas também sei que o empresário que gera emprego não pode ser penalizado, porque, se for, o prejuízo não fica com ele, ele repassa ao consumidor. E aí os preços aumentam e a inflação pode voltar, o que a gente não quer.” Com o governo pressionado por derrotas recentes e o Congresso mais independente em ano eleitoral, a tendência é de que a relação entre os poderes siga marcada por disputas e negociações intensas até o fim de 2026.

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