Na Rua Arthur Jorge, Matilde Hosback Rocha, de 87 anos, passa os dias fazendo o que mais gosta, doces caseiros. Há anos, ela resolveu se dedicar a isso e vender, por isso colocou uma placa no portão para que os vizinhos soubessem que ela faz desde doce de figo a doce leite. Em meio a eles, a aposentada encontrou a "fórmula" para viver mais. Antes das panelas e dos tachos, foram quase 50 anos trabalhando com costura para fora. Quando decidiu parar, não pensou duas vezes sobre o que faria depois. Foi para a cozinha e transformou um gosto antigo em rotina. "Fui fazer doce porque é o que eu gosto de fazer. A gente tem que fazer o que gosta. Eu faço com amor". Na cozinha, Matilde trabalha sozinha e sem pressa. Faz doce de goiaba, laranja, figo, abóbora, leite e mamão com coco. Entre todos, ela diz que os campeões de saída são o doce de figo e o de leite. O preço dos potes varia de R$ 30 a R$ 60, dependendo do tamanho e do preparo. Matilde reutiliza os potes que compra no mercado, esteriliza tudo e reaproveita. Alguns clientes, inclusive devolvem o pote para reabastecer o vidro com doce. É um ciclo que já virou costume no bairro. Além das vendas no dia a dia, ela também faz encomendas para eventos. Apesar do movimento, ela conta que os doces são complemento de renda. “Só de doce não sobrevive, não. Tem dia que vendo dois, tem dia quatro, tem dia só um”, comenta. Ainda assim, mantém o ritmo. Tem semana que faz uma leva inteira e acaba tudo. Em outras, o fogão descansa. Cada pote carrega horas de trabalho manual. No caso do doce de goiaba, por exemplo, o processo começa muito antes do açúcar entrar na panela. É preciso lavar as frutas, tirar as cascas, cortar uma por uma e só então cozinhar. Entre preparo e finalização, alguns doces levam quase 3 dias para ficar prontos no ritmo de Matilde. Quando perguntam o segredo para chegar aos quase 90 anos com disposição, ela responde sem pensar muito: comer bem, dormir bem e amar. “Comer frutas, legumes, amar e ser amado é o principal. Ninguém acredita que eu tenho essa idade”, conta, entre risos, e completa dizendo que nunca fumou e que o vício dela é o café. Enquanto tiver panela no fogão e gente batendo no portão, Matilde diz que pretende continuar. Quem quiser provar os doces pode passar na Rua Arthur Jorge, 1925. O pedido é feito ali mesmo, no portão. Matilde abre a conversa, mostra as opções do dia e entrega cada pote como carinho.


