A violência contra a pessoa idosa em Mato Grosso do Sul não aparece apenas nos casos extremos. Ela também está nos golpes bancários, na apropriação de aposentadorias, na negligência dentro de casa, no abandono, nos furtos, nas ameaças e nas agressões que nem sempre deixam marcas visíveis. Os dados mostram o tamanho do problema. Somente em 2026, conforme levantamento da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), o Estado já registrou 19 vítimas idosas de homicídio doloso, 1.568 casos de estelionato, 3.488 furtos, 782 registros de violência doméstica, 156 roubos, 17 tentativas de homicídio, 13 estupros, dois feminicídios e duas lesões corporais seguidas de morte. A comparação com 2025 reforça que o alerta não é retórico. No ano passado, MS contabilizou 41 homicídios dolosos contra idosos, 3.650 estelionatos, 7.195 furtos, 1.635 casos de violência doméstica, 383 roubos, 27 estupros, três feminicídios, cinco latrocínios, 24 tentativas de homicídio, uma tentativa de feminicídio e três lesões corporais seguidas de morte. É nesse cenário que a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul realizou, ao longo de junho, uma série de ações dentro da Operação Virtude 2026, em alusão ao Junho Prata, mês de conscientização contra a violência à pessoa idosa. A mobilização passou por municípios como Terenos, Coronel Sapucaia, Bataguassu, Glória de Dourados, Três Lagoas, Corumbá, Iguatemi, Campo Grande, Ribas do Rio Pardo, Aquidauana, Naviraí, Selvíria e Camapuã. As ações incluíram palestras educativas, visitas institucionais, orientação sobre direitos, prevenção a golpes e apuração de denúncias envolvendo possíveis violações contra idosos. Delegados e equipes policiais trataram de temas como maus-tratos, abandono, negligência, violência física, psicológica, moral, patrimonial e financeira. Também houve orientação sobre crimes cibernéticos e golpes que têm a população idosa como alvo frequente. Entre eles estão falsas centrais bancárias, empréstimos fraudulentos, fraudes via PIX, golpes por aplicativos de mensagens e o chamado golpe do falso advogado. A criatividade do criminoso, nesse caso, não merece aplauso. Merece boletim de ocorrência. Além da parte educativa, a Polícia Civil visitou instituições de longa permanência e espaços de acolhimento, como o Asilo São José, em Corumbá, o Lar dos Idosos, em Iguatemi, o Lar Santo Antônio, em Naviraí, e o Lar do Idoso de Camapuã. Nas visitas, as equipes verificaram estruturas, conversaram com residentes e profissionais e reforçaram a necessidade de atuação conjunta entre segurança pública, assistência social, família e comunidade. Em Aquidauana, a atuação teve também foco investigativo. Equipes realizaram diligências para apurar denúncias de possíveis crimes contra idosos, principalmente maus-tratos, negligência e outras formas de violência. Houve visitas, entrevistas com vítimas, familiares e responsáveis, além do andamento de procedimentos investigativos. Violência acompanha o envelhecimento – Dados de 2026 do MDHC (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania) também reforçam o peso do problema em MS. Entre pessoas idosas, o maior número de registros aparece na faixa de 70 a 74 anos, com 254 ocorrências, seguida pelo grupo de 75 a 79 anos, com 252. Também foram registrados 224 casos entre pessoas de 80 a 84 anos, 208 entre 60 e 64 anos, 153 entre 65 e 69 anos, 144 entre 85 e 89 anos e 130 entre pessoas com 90 anos ou mais. Ao todo, considerando as faixas etárias a partir dos 60 anos, MS soma 1.365 registros no MDHC em 2026. Os números indicam que as violações atravessam todas as etapas da velhice, com maior concentração entre pessoas de 70 a 84 anos. O contexto demográfico aumenta a urgência do debate. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil já tem mais de 30 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. A tendência é de envelhecimento acelerado da população, o que amplia a necessidade de políticas públicas, rede de proteção e atenção permanente. A OMS (Organização Mundial da Saúde) projeta que, até 2050, o número de pessoas com mais de 60 anos no Brasil deve triplicar, colocando o País entre os maiores contingentes de população idosa do mundo. Ou seja, a violência contra idosos não é um problema lateral. É um desafio de segurança pública, saúde, assistência social e convivência familiar. Negligência é violência, mesmo quando não deixa marca Para o médico geriatra e professor de Medicina da Uniderp, Marcos Blini, a violência física costuma chamar mais atenção, mas a negligência é uma das formas mais graves e recorrentes. Segundo ele, o problema muitas vezes ocorre de forma velada nos lares ou em casas de repouso, longe dos olhos da sociedade. A negligência pode aparecer na falta de acompanhamento médico, na higiene inadequada, no isolamento, na alimentação insuficiente, no descuido com idosos acamados e na ausência de atenção a quadros de confusão mental ou demência. Também são sinais de alerta hematomas, ferimentos sem explicação, desnutrição, roupas sujas, sonolência excessiva e mudanças repentinas de comportamento. A campanha Junho Prata reforça que denunciar não é interferir na vida de uma família. É proteger uma vítima. Casos de violência, abandono, negligência, exploração financeira ou qualquer violação de direitos contra pessoas idosas podem ser comunicados pelo Disque 100 ou diretamente à delegacia mais próxima. Em Campo Grande, as unidades da Polícia Civil contam com Seções de Atendimento à Pessoa Idosa, voltadas ao atendimento humanizado, registro de ocorrências, orientação e encaminhamentos necessários.

