Sete empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte tiveram o endereço formal alterado para um mesmo sobrado na Avenida Mato Grosso, em Campo Grande, depois que integrantes do grupo investigado teriam tomado conhecimento das apurações envolvendo a Santa Casa. O detalhe é que imóvel permaneceu sem consumo de água por meses, o que levantou dúvida sobre a existência de uma mudança real das atividades empresariais para o local. A suspeita surgiu a partir da análise de mensagens de celulares dos investigados e e-mails. De acordo com a decisão, esse material indicou que o conteúdo da ação de produção antecipada de provas, que buscava acesso a documentos e contas da Santa Casa, circulou entre integrantes do grupo antes das alterações nos cadastros das empresas. Até então, as empresas estavam vinculadas a um imóvel relacionado à presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima. Depois que o grupo teria tomado conhecimento da investigação, os endereços foram alterados de forma coordenada para a Avenida Mato Grosso. A apuração sustenta que a ausência de consumo de água no novo endereço é um indício de que a mudança registrada oficialmente pode não ter correspondido à transferência efetiva das atividades. A decisão também cita outra alteração ocorrida no mesmo período. A EX BE, uma das empresas investigadas, teve a participação societária modificada em favor da companheira de Maurício Aparecido Benites, preso na sexta-feira durante a Operação Antidotum. Apesar da mudança formal, a investigação afirma não ter encontrado elementos que demonstrassem que Maurício tivesse efetivamente deixado o controle da empresa. O empresário aparece na investigação como ligado ao núcleo empresarial da Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda., contratada pela Santa Casa para digitalização de documentos. Já Paulo da Cruz Duarte aparece na investigação não apenas por sua ligação com as empresas. Segundo a decisão, ele também atuava como advogado da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde ao mesmo tempo em que mantinha participação em empresas que passaram a ser contratadas sucessivamente pela própria operadora. Para a Justiça, o quadro, em tese, aponta relevante conflito de interesses e possível direcionamento das contratações em benefício de pessoas ligadas à administração da entidade. Na mesma decisão, a Justiça determinou o afastamento cautelar de Paulo da Cruz Duarte e de Beatriz Lemes da Silva das funções que exerciam na ABCG (Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande) e na Operadora Santa Casa Saúde. Os dois também ficaram proibidos de acessar as dependências das instituições enquanto durar a necessidade da medida, que poderá ser reavaliada posteriormente. Para os investigadores, as mudanças de endereço, as reorganizações societárias e a resistência na entrega de documentos não devem ser analisadas isoladamente. A decisão afirma que há elementos concretos de que, depois de tomarem conhecimento das investigações, integrantes do grupo adotaram medidas capazes de dificultar a reconstrução dos vínculos empresariais e financeiros investigados. O juíz também considerou que a estrutura investigada apresentava divisão de funções, uso reiterado da máquina administrativa e empresarial, múltiplos contratos e pagamentos, além de alterações posteriores que, segundo a investigação, poderiam dificultar a identificação dos vínculos entre empresas e o rastreamento patrimonial.

